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A LOUSA

A LOUSA O inverno em Vila Real era rigoroso e o vento tornava o guarda-chuva inútil: ignorava-o ou simplesmente o destruía. Luís estava farto das botas de borracha, porque lhe gelavam os pés e tinha calçado os socos. Os três centímetros da base de madeira, aos quais acresciam uma tira de pneu, permitiam-lhe passar pelas poças de água incólume. Abrandou ligeiramente o passo. Sentia-se enchouriçado dentro do fato impermeável e começava a transpirar. As calças largas cobriam os socos até à biqueira, o que era uma bênção, pois evitava que a água entrasse pelos atacadores. A sacola de pano, onde transportava os livros, o lanche e a lousa, tinha sido colocada a tiracolo, por baixo do casaco do impermeável, para não se molhar. O conjunto tornava o percurso, de dois quilómetros, feitos a pé e debaixo do temporal, um verdadeiro desafio. A alternativa era ficar em casa, mas a mãe era intransigente. «O teu pai emigrou e eu sacrifico-me todos os dias para vos dar um futuro. Os estudos sã...

O FETICHE

O FETICHE     A revelação surgiu de forma inesperada, a caminho do almoço. Gonçalo deixou cair a confissão: sentia-se atraído por mulheres mais velhas. Os três companheiros de repasto brincaram com o assunto, mas a coisa morreu por aí. Afinal tudo não passava de uma brincadeira. O que eles não imaginavam era a verdade que se escondia por detrás daquelas palavras. Gonçalo era um jovem de trinta e cinco anos de idade, casado e pai de dois rapazes. Sempre teve uma atração especial por mulheres mais velhas, mas, condicionado pela opinião dos que o rodeavam, casou com uma mulher da sua idade, de quem gostava verdadeiramente. No entanto, a atração por mulheres mais velhas nunca tinha desaparecido. Aquilo que complicava as coisas é que, nos últimos anos, esse desejo vinha crescendo de uma forma, que se tornava cada vez mais difícil ignorar. Naquele fim-de-semana aconteceu tudo. A mulher estava fora, em trabalho e coube-lhe a ele levar os filhos ao parque. Estava um dia ...

A JORNALISTA |PARTE IV | CAPÍTULO 5

A JORNALISTA |PARTE IV | CAPÍTULO 5  – A reconstituição A reconstituição teria, naturalmente, lugar no palacete da Lapa. Isso era uma situação extraordinária. O tribunal por algum tempo funcionaria na sala do palacete. Era aí que iria decorrer o interrogatório da governanta. Ela era a testemunha crucial de todo o processo e a acusação iria usá-la até à exaustão. Mónica Fonseca também ia estar presente para simular o ato de prisão e o interrogatório que teve lugar no local do crime. Para uma representação totalmente fiel tinham sido também convocados os polícias que efetuaram a prisão. Aquilo não lhe parecia uma grande ideia. Sem saber como o explicar tinha um pressentimento de que algo estava errado. Deu conhecimento dos seus receios ao chefe e a cadeia hierárquica funcionou. O palacete seria a casa mais bem guardada de Lisboa, durante todo o julgamento. Walker não estava nada feliz por voltar ao local e sobretudo por ser obrigado a reviver a cena que ainda hoje lhe cau...

O SEMÁFORO

O SEMÁFORO Na cidade do Porto, numa rua íngreme, como tantas outras, daquelas que parecem não ter fim, há-de encontrar-se um cruzamento de esquinas vincadas por serigrafias azuis, abertas sobre azulejos quadrados, encimadas por beirais negros de ardósias, que alinham, em escama, até ao cume e enfeitadas de peitoris de pedra, sobre os quais cai a guilhotina. Estreita e banal, sem razões para alguém perambular, esta rua, inaudita, é possuidora de um dispositivo extraordinário, mas conhecido de muito poucos: Um semáforo a pedal, que sobreviveu, ao contrário dos “primos”, tão em voga na década de sessenta, na América Latina. No início do século XX, o jovem engenheiro, François Mercier, de génio inventivo, mudou-se para o Porto. Apesar do fracasso em França e na capital, convenceu um autarca de que dispunha de um dispositivo elétrico e económico, bem capaz de regular o trânsito dos solípedes de carga, carroças, carros de bois a caleches, dos ilustres senhores. O autarca ...