A LOUSA O inverno em Vila Real era rigoroso e o vento tornava o guarda-chuva inútil: ignorava-o ou simplesmente o destruía. Luís estava farto das botas de borracha, porque lhe gelavam os pés e tinha calçado os socos. Os três centímetros da base de madeira, aos quais acresciam uma tira de pneu, permitiam-lhe passar pelas poças de água incólume. Abrandou ligeiramente o passo. Sentia-se enchouriçado dentro do fato impermeável e começava a transpirar. As calças largas cobriam os socos até à biqueira, o que era uma bênção, pois evitava que a água entrasse pelos atacadores. A sacola de pano, onde transportava os livros, o lanche e a lousa, tinha sido colocada a tiracolo, por baixo do casaco do impermeável, para não se molhar. O conjunto tornava o percurso, de dois quilómetros, feitos a pé e debaixo do temporal, um verdadeiro desafio. A alternativa era ficar em casa, mas a mãe era intransigente. «O teu pai emigrou e eu sacrifico-me todos os dias para vos dar um futuro. Os estudos sã...