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A JORNALISTA | PARTE V | CAPÍTULO 5

A JORNALISTA | PARTE V | CAPÍTULO 5  – O anjo da morte Mónica Fonseca encostou-se para trás e recostou a cabeça. Nunca se tinha visto numa situação como aquela. Tinha entre mãos três assassinatos por resolver, sendo que o mais provável era estarem todos ligados entre si, podendo dar-se ainda a coincidência de o assassino ser a mesma pessoa. Precisava desesperadamente de ajuda. Por mais que lhe custasse tinha que bater à porta de Anabela. Agora que ela deixara de estar obrigada pelo sigilo, pois, o cliente, depois de absolvido, tinha sido morto, talvez estivesse disponível para partilhar aquilo que sabia. Precisava também de perceber se eles tinham prosseguido com a investigação, pois não sabia se o Chef Walker os tinha mandatado para descobrir o assassino da jornalista. Mónica foi ter com Anabela ao escritório e estranhou não encontrar lá o detetive Perestrelo. «O detetive Perestrelo já não trabalha consigo?» «O Perestrelo continua a trabalhar para mim, mas isso n...

O SORRISO

O SORRISO   Desesperada bateu a porta e fugiu para a rua. O marido e a sua melhor amiga estavam na cama deles. A traição acabou-lhe com a vida. As palavras dele ajudaram a toldar-lhe o juízo «Metes-me nojo…» Dissera. Ela sempre vivera para ele, em função dele. Sem ele nada fazia sentido, nem a sua própria vida. Tinha tomado uma resolução. Encostada à coluna, na estação de metro aguardava como os restantes passageiros, embora ligeiramente afastada destes. Tinha os cabelos em desalinho, o rosto sujo e as roupas rasgadas, fruto da briga com ele. Tinha, portanto, um aspeto pouco recomendável. Jovens e idosos passavam por ela, ignorando a sua dor, mas ela não se importava. Era a sua dor. De costas contra a coluna, deixou-se escorregar até ficar sentada no chão. O choro tornou-se convulsivo, fazendo o ranho e a baba cair sobre a blusa. As pessoas afastaram-se ainda mais dela, como se tivesse lepra. Sentiu a mochila poisar à sua frente, mas não levantou o ros...

QUANDO O PASSADO TE ENCONTRA

QUANDO O PASSADO TE ENCONTRA Desceu as escadas do metro cambaleante. Sentia-se vazio. O álcool era a sua única companhia. Tudo na sua vida se tinha esfumado. O emprego fazia um ano que se tinha eclipsado. Era a crise, diziam! O mercado tinha-lhe colocado a sua chancela: aos quarenta e nove anos, era considerado velho. A brilhante carreira de gestor era irrelevante. Tudo na sua vida dele era irrelevante. Ele também era irrelevante. Pelo menos foi aquilo que a mulher lhe disse, essa manhã, antes de o abandonar e após alguns meses de críticas e cobranças, que tornaram a vida um suplício. Ele tinha deixado de ter condições para lhe dar aquilo que ela queria. Tinha investido tudo nela, mas o investimento revelara-se mau. «Não foi para ter este tipo de vida que casei contigo!» Dissera Filipa, ao partir. Tinha sido uma despedia cruel. Porque não a conseguia odiar? Como podia amá-la depois de tudo? O mesmo amor que o tinha ajudado a manter a cabeça erguida iria conduzi-lo às profun...

A JORNALISTA | PARTE V | CAPÍTULO 4

A JORNALISTA | PARTE V | CAPÍTULO 4  – O correio Tal como diz o ditado “Depois de casa roubada, trancas à porta”. Foi isso que eles fizeram. Colocaram um alarme nos escritórios e reforçaram as portas e fechaduras. Não resolvia o passado mas prevenia o futuro. «Continuo sem perceber o que procuravam os ladrões.» Disse Perestrelo. «Efetivamente é estranho. Eles reviraram tudo e acabaram por não levar nada.» Disse Anabela. Era um mistério. O mais irónico de tudo é que os documentos mais relevantes do processo estavam nas respetivas casas e não no escritório. Coincidências!   Estavam os dois no escritório de Perestrelo e tinham acabado de passar em revista os relatórios sobre os vários casos que tinham em mãos. Perestrelo tinha voltado a aceitar casos não patrocinados por ela e isso tinha provocado uma reação negativa por parte dela. Anabela entendia que ele deveria trabalhar, em exclusivo, para ela, fazendo disso uma condição para a continuidade da relação. Ele vi...

O BEIJO

O BEIJO O teu coração secou! Diziam as amigas. Raquel sentia-se vazia. Ele tinha partido, balbuciando algumas justificações sem sentido. Reteve apenas uma, arrancada a ferros: a outra tinha dinheiro. Tinha sido trocada por uns euros! As amigas diziam-lhe que ela era muito mais mulher e que a outra era dez reis de gente, mas Raquel não quis saber. Doía-lhe demasiado e quando a ferida é muito profunda devemos evitar mexer nela. Tinha procurado muitas formas de acabar com a dor, mas nada a conseguia aplacar. Ela teimava em continuar aninhada no seu peito. Tinha-se aconchegado ali e recusava-se a partir. Amara-o tanto que que se sentia incapaz de amar mais alguém. A verdade é que tinha perdido a fé nos homens. As amigas tinham tentado tudo mas, estivesse onde estivesse, os momentos de verdadeira distração eram fugazes. Rapidamente se fechava sobre si e se isolava do mundo. Fazia mais de um ano que estava só o que para uma jovem bonita, de trinta e dois anos, não e...