Avançar para o conteúdo principal

PALAVRAS SOLTAS - A chuva




 A CHUVA

Abordagem objetiva
“A chuva fez descer a neblina, separando-a e deixando a descoberto trechos de terra que se assemelhavam a pequenas ilhas rodeadas de um oceano de espuma. As mulheres, retardatárias que caminhavam apressadamente, seguindo pelo caminho em direção à igreja, seguravam numa mão o guarda-chuva para se protegerem desta e usavam a outra para levantar as saias e não as molhar, uma vez que o caminho estava coberto de alguns centímetros de água, ao mesmo tempo que procuravam caminhar sobre as pedras.”


Abordagem subjetiva
A chuva fez descer a neblina, aliviando o ar sombrio daquela manhã, separando-a e deixando a descoberto trechos de terra, entrecortados por brumas de neblina, que se assemelhavam a ilhas e conferiam dignidade à paisagem. Apesar da chuva, as mulheres, retardatárias, caminhavam apressadamente, movidas pela fé, seguindo o caminho em direção à igreja. Com uma mão seguravam o guarda-chuva, com convicção e com a outra levantavam as saias, com firmeza, protegendo-as da água que cobria as pedras do caminho, limpando-as com o mesmo vigor que a água benta limparia as suas almas.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O SEMÁFORO

O SEMÁFORO Na cidade do Porto, numa rua íngreme, como tantas outras, daquelas que parecem não ter fim, há-de encontrar-se um cruzamento de esquinas vincadas por serigrafias azuis, abertas sobre azulejos quadrados, encimadas por beirais negros de ardósias, que alinham, em escama, até ao cume e enfeitadas de peitoris de pedra, sobre os quais cai a guilhotina. Estreita e banal, sem razões para alguém perambular, esta rua, inaudita, é possuidora de um dispositivo extraordinário, mas conhecido de muito poucos: Um semáforo a pedal, que sobreviveu, ao contrário dos “primos”, tão em voga na década de sessenta, na América Latina. No início do século XX, o jovem engenheiro, François Mercier, de génio inventivo, mudou-se para o Porto. Apesar do fracasso em França e na capital, convenceu um autarca de que dispunha de um dispositivo elétrico e económico, bem capaz de regular o trânsito dos solípedes de carga, carroças, carros de bois a caleches, dos ilustres senhores. O autarca ...

CORONAVÍRUS - A REVOLTA DO PLANETA

CORONAVÍRUS - A REVOLTA DO PLANETA Ainda o mundo não falava de pandemia, embora o vírus se espalhasse de forma rápida e silenciosa, e já este pensamento povoava os meus sonhos: O nosso planeta está a dar-nos um sinal. Hoje estou profundamente convicto de que isso é uma evidência e de que existe uma grande lição a retirar desta pandemia. A dúvida é se a humanidade terá ou não capacidade para apreender a lição e, sobretudo a colocar em prática. O planeta tentou de tudo. Se estivéssemos perante um ser humano, com todas as tecnologias atuais, à sua disposição, diria que começou por nos escrever uma carta, explicado o que estávamos a fazer mal, depois enviar um telegrama, mostrando-nos a importância de atuar. A humanidade ignorou. Telefonou-nos e, com voz afável, explicou que não podíamos prosseguir por este caminho, apareceu nos nossos instragram ou facebook, nos ecrãs das nossas televisões, mas mesmo assim a humanidade ignorou. Inundou-nos de tal forma com advertências que algun...

A AMIGA DO IRMÃO

A AMIGA DO IRMÃO Amélia era a todos os títulos o melhor partido da aldeia. Filha de um abastado proprietário, dividia o património com a irmã mais velha, sorte que o pai lamentava, pois sempre tinha querido um filho varão. Isso não o impedia de amar as duas filhas ao ponto de as idolatrar. Queria que elas tivessem uma sorte diferente da sua, a começar pela educação, pelo que eram das poucas moças da aldeia que estudaram até ao sétimo ano do liceu. A universidade era outra história: ele não estava preparado para as deixar ir, sozinhas, para o Porto, cidade mais próxima de Vila Real, onde a podiam frequentar. A irmã nunca quis estudar, mas Amélia ainda tentou, mas mesmo com o apoio da mãe, uma mulher com visão, foi tudo em vão. «Não quero sequer imaginar a minha filha sozinha, no meio do bando de galifões, que são estes pretendentes a doutores!» Manuel conheceu Amélia quando estava no quinto ano. A primavera tinha começado e ele fazia o caminho entre a casa e a escola a pé, com o irmão. ...