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A JANELA



A JANELA


A janela: Tanto pode proporcionar uma vista para o mundo como ser uma barreira que nos separa dele...



Lá estava ele. Alto, garboso, de cabelos grisalhos, passeando o cão pela trela. Emília era viúva ia para 10 anos. A perca do marido remeteu-a para uma reclusão absoluta. Ela que sempre fora uma mulher ativa e extrovertida tinha perdido a vontade de ter vida própria. Vivia com os seus livros e os seus gatos, aguardando, de forma solitária, as visitas da filha e dos netos. Com as cortinas levantadas ela espreitava o pátio onde todos os dias o homem vinha passear o cão, um pastor alemão jovem e lindo, o que o tornava ainda mais interessante a seus olhos.

«A mãe devia sair um pouco de casa. Porque não procura estabelecer contacto com o Sr. Alberto?» disse a filha.

«Com quem?» Perguntou a mãe franzindo o cenho.

«Não me diga que ao fim de três anos de admirar o homem que passeia o cão no pátio não sabe que ele vive no prédio em frente e se chama Alberto?» Disse a filha com ar divertido.

«Quero lá saber do homem e do cão. Ele chama-se Alberto?» Perguntou a mãe denunciando o seu interesse.

Nos dias que se seguiram imaginou vezes sem conta que ia até ao pátio e falava com o Alberto. Agora que sabia o nome do homem sentia a existência de uma intimidade entre os dois, que embora sem qualquer fundamento, a fazia sonhar, de olhos fechados e até com eles abertos. Com a testa colada ao vidro observava-lhe todos os passos, bebia os seus gestos, vivendo intensamente os efémeros vinte minutos que durava o passeio do cão. Depois passava o resto do dia a sonhar com novo “encontro”. Fora nesses momentos de solidão que prometera mil vezes, a si própria, que no dia seguinte tomaria a iniciativa de o conhecer.

Ao fim de algum tempo e perante a insistência da filha e do genro, que também se tornara cúmplice naquela história de amor platónico, ela tomou a decisão. «Amanhã vou sair à rua e quando o Alberto chegar ao pátio vou falar com ele.» Pensou de forma resoluta.

No dia seguinte a filha recebeu uma chamada do hospital onde a mãe tinha dado entrada de urgência. Quem tinha chamado a ambulância foi um vizinho que estava a passear o cão. A mãe quando acordou do desmaio, já a caminho do hospital, estava num estado de excitação tão grande que teve de ser medicada com um calmante.

«Não consegui falar com o Alberto. Quem veio passear o cão foi um jovem.» Disse a mãe.

Emília voltou para casa, não sem antes obter da filha a promessa de que esta iria averiguar o que se passava com o Alberto. A notícia de que o Alberto tinha conhecido uma pessoa, fazia um ano e de que tinha ido viver com ela, deixando o cão com o filho, caiu como uma bomba. Emília chorou a perca como se ele fosse seu marido, mas chorou sobretudo a oportunidade perdida. Depois de vários dias de luto, regado com lágrimas, ela decidiu que já não tinha idade para perder oportunidades como aquela, mas, sobretudo, que ainda tinha idade para as criar.

Agora quem quiser ver Emília terá de a procurar nalguma viagem, nas suas ações de voluntariado ou à beira rio a passear com o seu namorado.



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