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O PARAÍSO




O PARAÍSO


Um grupo de jovens adolescentes, de ambos os sexos, salta o muro do inferno para roubar ameixas, atraídos pelo delicioso cheiro dos restos deixados pelas aves do lado de cá do muro. Roubar fruta é uma coisa que todos os adolescentes fazem desde o princípio do mundo, ou não fosse essa a forma bíblica da transmissão do conhecimento que levou ao pecado original. O calor era insuportável. A serpente levou-os a visitar as fornalhas. Monstros, semelhantes a enormes dragões, sopravam fogo mantendo a lava incandescente. «Este calor é insuportável» disse uma das jovens. «Toma uma ameixa madura e fresca» disse a serpente com um ar sedutor. A montanha fechou-se nas suas costas e à frente deles apenas existia o precipício onde estavam prestes a ser lançados. Apressaram-se a subir a escada de arame que lhes apareceu à frente e estavam a voar. O vento forte obrigou-os a agarrarem com força a escada, mas purgou-os das limalhas e cinzas que marcavam a sua passagem pelo Inferno. A escada soltou-se do que quer que fosse que a suportava e estavam de novo em terra firme. «Bem-vindos ao paraíso». Diante deles estava um ciclope com asas fazendo uma vénia. Os querubins ociosos, estirando as refulgentes asas ao sol e debicando frutos secos, jogavam cartas para passar o tempo. O ciclope mostra-lhes a árvore do paraíso, de cujos frutos comeram Adão e Eva, com proveito ou sem ele, era matéria propensa a controvérsia, nas palavras do alado solípede. Depois mostra-lhes os anjos, os arcanjos, os benjamins e os serafins e toda uma legião de gente alada. Vêm em seguida os tronos, as virtudes, o bem, as potências, numa paz e tranquilidade que mexia com os nervos deles. O resfolegar de Deus, que dormia a sono solto, chamou-lhes à atenção. «Isto aqui serve para o que?» perguntou um dos jovens. Ninguém se lembrava da utilidade daquele ser, imenso e omnipresente. Era com se ele sempre lá tivesse estado. Como se fizesse parte do local mas sem ter uma função especifica para além de ser e de estar. Deus, desconhecedor dessa ignorância, ocupava o tempo e o espaço ignorante da ignorância a que era vetado.

(rescrição de um texto de José Eduardo Agualusa)



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