Avançar para o conteúdo principal

O ABRAÇO


O ABRAÇO


O homem abandonou o quarto do hospital cambaleante. A raiva e o desespero tinham-lhe aprisionado o coração. Nada mais fazia sentido. No leito de morte ela fizera-o prometer que ele continuaria a sua vida, mas ela tinha partido e ele, sozinho, não se sentia capaz de cumprir a promessa. Sem ela não existia vida. Sem ela não existia nada… Cego pelo desespero tropeçou no banco e antes de se estatelar no chão foi colhido por um braço forte. Instintivamente agarrou-se para não cair e envolveu o desconhecido num abraço, soluçante e sufocante.
O desconhecido retraiu-se ao ser abraçado. O desespero daquele soluço, no seu ouvido, comoveu-o e retribuiu o abraço. Abraçaram-se como se não houvesse amanhã. Talvez nunca tenha existido um abraço tão sincero, tão desinteressado e tão fraternal. Nada unia aqueles dois homens a não ser a partilha da dor de um deles. A estranha partilha da dor com um desconhecido.
Depois do falecimento da esposa o seu coração tinha murchado, mas aquele abraço restituiu-lhe a vida. O coração que palpitava no peito daquele estranho, batendo, acelerado devido ao insólito da situação, recordou-lhe a vida e a promessa feita no leito de morte. Tinha de continuar a viver…
Lentamente afastou-se do estranho, que continuava a apertá-lo contra o seu peito como se fossem amigos íntimos. Olhou para ele com um sorriso, que era mais um esgar de dor. A dor que ainda lhe consumia a alma, mas, estranhamente, o desespero tinha desaparecido do seu olhar.
«Desculpe e obrigado.»
A mão apertou o ombro do desconhecido e sem dizer mais nada deu meia volta e partiu.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O SEMÁFORO

O SEMÁFORO Na cidade do Porto, numa rua íngreme, como tantas outras, daquelas que parecem não ter fim, há-de encontrar-se um cruzamento de esquinas vincadas por serigrafias azuis, abertas sobre azulejos quadrados, encimadas por beirais negros de ardósias, que alinham, em escama, até ao cume e enfeitadas de peitoris de pedra, sobre os quais cai a guilhotina. Estreita e banal, sem razões para alguém perambular, esta rua, inaudita, é possuidora de um dispositivo extraordinário, mas conhecido de muito poucos: Um semáforo a pedal, que sobreviveu, ao contrário dos “primos”, tão em voga na década de sessenta, na América Latina. No início do século XX, o jovem engenheiro, François Mercier, de génio inventivo, mudou-se para o Porto. Apesar do fracasso em França e na capital, convenceu um autarca de que dispunha de um dispositivo elétrico e económico, bem capaz de regular o trânsito dos solípedes de carga, carroças, carros de bois a caleches, dos ilustres senhores. O autarca ...

CORONAVÍRUS - A REVOLTA DO PLANETA

CORONAVÍRUS - A REVOLTA DO PLANETA Ainda o mundo não falava de pandemia, embora o vírus se espalhasse de forma rápida e silenciosa, e já este pensamento povoava os meus sonhos: O nosso planeta está a dar-nos um sinal. Hoje estou profundamente convicto de que isso é uma evidência e de que existe uma grande lição a retirar desta pandemia. A dúvida é se a humanidade terá ou não capacidade para apreender a lição e, sobretudo a colocar em prática. O planeta tentou de tudo. Se estivéssemos perante um ser humano, com todas as tecnologias atuais, à sua disposição, diria que começou por nos escrever uma carta, explicado o que estávamos a fazer mal, depois enviar um telegrama, mostrando-nos a importância de atuar. A humanidade ignorou. Telefonou-nos e, com voz afável, explicou que não podíamos prosseguir por este caminho, apareceu nos nossos instragram ou facebook, nos ecrãs das nossas televisões, mas mesmo assim a humanidade ignorou. Inundou-nos de tal forma com advertências que algun...

A AMIGA DO IRMÃO

A AMIGA DO IRMÃO Amélia era a todos os títulos o melhor partido da aldeia. Filha de um abastado proprietário, dividia o património com a irmã mais velha, sorte que o pai lamentava, pois sempre tinha querido um filho varão. Isso não o impedia de amar as duas filhas ao ponto de as idolatrar. Queria que elas tivessem uma sorte diferente da sua, a começar pela educação, pelo que eram das poucas moças da aldeia que estudaram até ao sétimo ano do liceu. A universidade era outra história: ele não estava preparado para as deixar ir, sozinhas, para o Porto, cidade mais próxima de Vila Real, onde a podiam frequentar. A irmã nunca quis estudar, mas Amélia ainda tentou, mas mesmo com o apoio da mãe, uma mulher com visão, foi tudo em vão. «Não quero sequer imaginar a minha filha sozinha, no meio do bando de galifões, que são estes pretendentes a doutores!» Manuel conheceu Amélia quando estava no quinto ano. A primavera tinha começado e ele fazia o caminho entre a casa e a escola a pé, com o irmão. ...