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A QUADRAGÉSIMA

A QUADRAGÉSIMA

Aplastado, segura, com firmeza, a rédeas da quadriga,
Vem de tão longe, que a origem faz tempo, olvidou!
Viagem milenar, experimentando da vida a aspereza,
Cofiando as barbas brancas, a sua história nos contou.
Por quanto passaste para nos trazer este conhecimento?
A fecundação de um povo, a diáspora e o renascimento!

Quarenta dias choraram os céus, sobre a arca de Noé,
Cumprida a divinal promessa, de diluvio exterminador.
Quarenta dias baixaram as águas, para em terra por o pé,
Arco da aliança: Deus e homem, selando futuro promissor!
Que quereis senhor com dupla quadragésima alcançar?
Expurgar o mal da terra e o coração do meu povo purificar.

No topo do monte Sinai, quarenta dias orou Moisés,
Para guiar o povo Ebreu, recebeu os dez mandamentos.
Por quarenta anos, areias escaldantes queimam os pés,
Alonga-se a travessia, terminado em guerras e tormentos!
Porque se alonga a caminhada em busca da terra prometida?
Penitenciam-se as almas e aos adultos extingue-se a vida.

Caminha o profeta, quarenta dias, até ao monte Horebe,
Manifestam-se os elementos, Yavé ouve-se Omnipotente.
Na égide do juízes, por quarenta anos, a paz que prossegue,
Ungem-se os reis, escolhidos por Deus, aristarco e pungente.
Porque combates a espada, com unção e imposição de manto?
Purifico-lhes a alma, evitando a guerra, que só gera pranto.

Quarenta dias, aguarda Maria, após o nascimento do menino,
Purifica-se, para se tornar digna de entrar no santuário.
Circuncisa-se Jesus, enquanto humano, cumprindo o destino,
O filho de Deus, feito filho do homem, assume o fadário.
Porque rejeitas a acropóstia, num gesto simples e mundano?
Alma sem mácula, corpo puro: ambos no mesmo plano.

Em ermas areias, por quarenta dias, sem codório,
Frágil, mas com mente forte, submeteu-se à tentação
Renega o teu Deus! Oh prazer…Tão efémero e inglório!
Venceu a pureza, afasta-se o Demo em humilhação.
Porque sujeitas o corpo a tal prova de expiação?
Para que todos aprendam, que o exemplo é a lição!

Ressuscitado, a quadragésima com os apóstolos passou,
Com as coisas do Pai, iluminando-lhes o espírito e a mente.
Chegado o seu tempo, qual gota de água, ao céu se elevou,
Deixando-os a sós, para que sintam o espirito presente.
Abandonas os discípulos, entregues ao mundo cruel?
Não! Eu e o Pai somos o espírito, omnipresente e fiel.

Qual pedra angular, sobre Pedro erigida, nasce a igreja,
Da quadragésima marcando o ritmo e a cadência.
É cristã, prega bem alto para que toda a gente veja,
Católica, Anglicana, Ortodoxa ou Luterana, é a convergência.
Que esperais desse tempo, aos homens restringindo a ação?
Esperamos o Senhor, este é o tempo de purificação.

Habita num corpo com vida efémera, a alma eterna,
Ungido com cinzas: Nasceste do pó e ao pó voltarás!
Nesta Quarta solene, uma cerimónia que consterna,
Começa a penitência: a purificação vencerá Satanás.
Que esconde tal dia, que parece a esmo escolhido?
Inicia-se a Quaresma, tempo de estar recolhido.

São sete irmãs: a primeira é manca e a última santa,
Quarenta dias que, ironicamente, ignoram o domingo.
Jejum e abstinência, virtudes que a Igreja encanta,
Na reserva do meu canto, o que origino é só comigo.
Com solenidade impões tal fardo aos fiéis. Porquê?
Para a purificação da alma, sacrificam o que se vê.

Veste-se de roxo o celebrante: cor de recolhimento,
Solenidades dominicais: epistolas bem marcadas.
O rosa ofusca o cego, explosão de contentamento,
O Lázaro e os Ramos, condignamente celebrados.
Porque marcam passo, um caminhar em procissão?
Sobem a escadaria, que conduz ao altar da celebração.

Seguem em via-sacra: em cada queda uma paragem.
Vem o lava-pés: maravilhosa lição de humildade…
Em cerimónia solene, recebe-se da morte a mensagem.
Vil traição! Os mais próximos negam-lhe a lealdade…
Porque receais, escondendo a vossa afeição?
É duro o caminho, mais fácil é a sua negação.

Em desespero, veem o mestre ser cruxificado,
Esquecem as palavras por Ele ditas com paixão!
Renasce a esperança, ao ver o mestre ressuscitado,
Cumpre-se a escritura, dando-lhes força e convicção.
Longa foi a jornada. Porque lhes dais tanta importância?
É a Quaresma, tempo de purificação e penitência.

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